Lavagem de dinheiro por meio de presentes no TikTok: como o esquema pode funcionar e por que grandes perfis podem ser utilizados

As lives do TikTok criaram um mercado no qual atenção, engajamento e presentes virtuais podem resultar em remuneração para criadores de conteúdo. A mesma estrutura que permite a monetização legítima, porém, também pode ser explorada para dar aparência lícita ao produto de crimes.
O risco surge porque o dinheiro entra na plataforma por uma pessoa, circula sob a forma de Moedas e Presentes e pode resultar em um pagamento feito pela própria plataforma ao criador. No extrato bancário final, o crédito pode aparecer como remuneração de atividade digital, enquanto a origem econômica verdadeira estava em fraude, tráfico de drogas, jogos ilegais, desvio de recursos ou outro crime.
Esse modelo pode ser especialmente atraente quando o beneficiário possui grande audiência, ostenta rendimentos elevados ou já recebe receitas variáveis de publicidade, shows, afiliações e monetização. Nesse contexto, uma movimentação artificial pode ser misturada a uma atividade verdadeira e apresentada como apoio espontâneo dos seguidores.
Não se trata apenas de uma hipótese acadêmica. Operações policiais, processos judiciais e documentos atribuídos a investigações internas do próprio TikTok já identificaram o uso ou o risco de uso dos presentes virtuais para movimentar valores de origem criminosa. Isso não significa, entretanto, que todo presente de alto valor seja suspeito ou que criadores conhecidos participem de crimes.
Existem casos concretos envolvendo dinheiro ilícito e presentes do TikTok?
Sim. Os casos encontrados mostram que recursos criminosos conseguem entrar no ecossistema das lives e chegar a criadores por meio de presentes.
Em junho de 2023, a polícia da Turquia informou ter identificado um esquema no qual dados de cartões de crédito foram obtidos sem autorização e utilizados para comprar moedas do TikTok. Essas moedas eram enviadas em forma de presentes a transmissores da plataforma. A operação alcançou 195 suspeitos, com prisões e apreensão de contas bancárias, criptoativos, imóveis, empresas e veículos.
O caso turco apresenta a estrutura operacional que interessa à lavagem: o valor é retirado da vítima, convertido em item virtual e enviado a transmissores ligados ao ganho investigado. No Brasil, o enquadramento como lavagem ainda exigiria prova de que essa circulação foi usada conscientemente para ocultar ou dissimular a origem criminosa.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça acusou uma ex-funcionária de desviar aproximadamente US$ 300 mil de uma instituição religiosa. Segundo o acordo apresentado no processo, mais de US$ 220 mil foram utilizados para comprar moedas e enviar presentes a criadores do TikTok. Esse caso foi processado como fraude eletrônica, mas comprova algo relevante para a análise da lavagem: dinheiro subtraído de uma vítima pode ser convertido em presentes e transferido para contas de criadores.
Há ainda uma fonte especialmente importante. Documentos divulgados em ação promovida pelo Estado de Utah afirmam que o próprio TikTok realizou, em 2021, uma investigação interna denominada Project Jupiter. Segundo a divulgação oficial do governo de Utah, a apuração interna teria concluído que o TikTok Live e sua moeda virtual permitiam a criminosos lavar dinheiro relacionado a fraudes, venda de drogas e outras atividades ilícitas.
Essas informações integram uma ação judicial e representam alegações ainda sujeitas à apreciação do Judiciário norte-americano. Mesmo assim, são relevantes porque teriam sido extraídas de documentos internos obtidos durante o processo, e não apenas de especulações publicadas em redes sociais.
Outro processo, ajuizado pelo Procurador-Geral do Distrito de Columbia, descreve o TikTok Live como uma economia virtual que conecta compra de Moedas, envio de Presentes e remuneração de streamers. A acusação sustenta que essa estrutura deveria estar submetida a controles mais rigorosos de transmissão de dinheiro e prevenção à lavagem.
O que está documentado e o que constitui análise de risco?
As fontes disponíveis permitem afirmar que recursos obtidos por fraude já foram utilizados para comprar Moedas e enviar Presentes, que autoridades identificaram ganhos ilícitos dentro desse ecossistema e que documentos apresentados em processos judiciais relatam padrões de possível lavagem no TikTok Live.
Essas fontes não permitem afirmar, de maneira generalizada, que grandes streamers brasileiros, traders de opções binárias ou artistas estejam praticando lavagem por meio dos presentes. Até o momento, não foi localizada fonte pública oficial que demonstre, no Brasil, a utilização desse mecanismo específico por integrantes dessas categorias.
Por isso, as referências a streamers, traders e artistas ao longo deste artigo possuem uma finalidade técnica: explicar por que determinados perfis, quando controlados, recrutados ou utilizados por uma organização criminosa, podem oferecer uma justificativa econômica mais convincente para a movimentação. Trata-se de uma análise de vulnerabilidade e oportunidade criminosa, e não de acusação contra uma categoria profissional.
Como funciona o sistema de Moedas, Presentes e Diamantes?
De acordo com a Política de Itens Virtuais do TikTok, atualizada em janeiro de 2026, as Moedas são adquiridas pelo usuário e utilizadas para ativar Presentes durante as transmissões.
Quando o espectador envia um Presente, a plataforma registra aquela interação e a utiliza para medir a popularidade do criador por meio de Diamantes. A popularidade e o engajamento são fatores considerados pelo TikTok em seus programas de recompensa.
Tecnicamente, não existe uma transferência direta de dinheiro entre o espectador e o streamer. A política atual afirma que os itens virtuais não são moeda, não podem ser negociados livremente entre usuários e não garantem automaticamente um pagamento.
Para compreender o risco de lavagem, porém, o dado central é outro: a compra realizada por um usuário pode contribuir para que uma pessoa diferente receba uma recompensa financeira da plataforma. Assim, existe uma mudança na aparência e na documentação do dinheiro.
Na origem, o recurso pode estar associado a um cartão fraudado, a valores desviados, a uma operação criminosa ou a uma conta controlada por terceiro. No destino, o criador recebe um pagamento vinculado à sua atividade digital e ao desempenho da live. A plataforma se posiciona entre quem colocou o dinheiro e quem recebeu a recompensa.
É justamente essa intermediação que pode ser explorada para ocultar o vínculo entre o produto do crime e o beneficiário final.
Como o esquema de lavagem pode funcionar por meio dos presentes
O Coaf explica a lavagem por meio de três fases teóricas: colocação, ocultação e integração. Elas podem ocorrer separadamente, simultaneamente ou até se sobrepor. Não são requisitos formais que precisem aparecer com esses nomes em toda denúncia.
Aplicado ao TikTok, o mecanismo pode ser compreendido da seguinte forma.
1. Obtenção do dinheiro ilícito
Primeiro existe um crime capaz de gerar recursos. A origem pode ser o tráfico de drogas, uma fraude eletrônica, o uso indevido de cartões, o desvio de dinheiro, a exploração de jogos ilegais, o estelionato praticado por uma plataforma financeira ou outra infração penal.
Esse é o chamado crime antecedente. Sem a demonstração de que o patrimônio veio, direta ou indiretamente, de uma infração penal, não existe lavagem de dinheiro.
2. Conversão do valor em itens da plataforma
Em seguida, recursos ligados ao grupo são utilizados para adquirir Moedas. Com isso, o dinheiro deixa sua forma bancária ou econômica original e passa a circular dentro de um sistema fechado de itens virtuais.
Essa conversão cria uma primeira ruptura documental. A transação passa a ser registrada como aquisição de um produto digital, e não como transferência direta para o verdadeiro destinatário pretendido.
No caso turco, por exemplo, a polícia afirmou que cartões obtidos sem autorização foram utilizados exatamente para essa finalidade.
3. Envio coordenado de Presentes
As Moedas são empregadas na ativação de Presentes durante uma live realizada por uma conta controlada pelo grupo, por um colaborador ou por alguém que aceitou participar da operação.
Visualmente, o comportamento se parece com uma manifestação comum de fãs. A transmissão recebe presentes, acumula engajamento e aparenta ter mobilizado uma comunidade disposta a apoiar financeiramente o criador.
Quando existem espectadores verdadeiros, os presentes ilícitos podem se misturar a milhares de interações legítimas. Essa mistura dificulta perceber, apenas pela aparência da live, quais pagamentos foram espontâneos e quais foram previamente organizados.
4. Transformação em popularidade e recompensa
Os Presentes influenciam a quantidade de Diamantes e os indicadores de popularidade da conta. Conforme as regras do programa aplicável, esse desempenho pode contribuir para uma recompensa financeira ao criador.
O ponto jurídico importante é que o eventual pagamento não vem diretamente da conta usada para comprar as Moedas. Ele pode chegar por intermédio da plataforma ou de seus processadores, com a identificação de remuneração de criador.
O documento bancário final, portanto, não revela sozinho que o ciclo começou com dinheiro proveniente de crime.
5. Integração à renda aparentemente legítima
Depois do pagamento, o valor pode ser contabilizado como receita de live, monetização ou atividade de influenciador. Se o beneficiário já trabalha com internet, música, publicidade ou entretenimento, essa explicação possui aparência econômica plausível.
Nesse momento, o produto do crime passa a conviver com receitas verdadeiras. Pode haver documentos da plataforma, histórico de transmissões e uma atividade pública capaz de justificar, ao menos superficialmente, a entrada do dinheiro.
O valor não se torna juridicamente limpo. O que muda é sua aparência e a dificuldade de reconstruir o caminho até a infração antecedente.
Por que o TikTok pode ser atraente para a lavagem de dinheiro?
O sistema reúne características que, quando combinadas, podem interessar a organizações criminosas.
A origem e o destino aparecem separados
Quem compra as Moedas não transfere dinheiro diretamente para a conta bancária do criador. Entre os dois existem itens virtuais, registros de engajamento, regras de recompensa e processadores de pagamento.
Para o banco do criador, o remetente imediato pode ser a plataforma ou uma empresa de pagamentos. Para descobrir a origem econômica, a investigação precisa obter os registros internos que identificam quem comprou as Moedas, quais meios de pagamento foram usados e para qual live os Presentes foram enviados.
O presente possui uma justificativa subjetiva
Não existe preço de mercado para o entusiasmo de um fã. Um espectador pode enviar um presente caro porque gosta do criador, quer aparecer na tela, deseja ajudá-lo a vencer uma batalha ou pretende demonstrar prestígio perante a comunidade.
Essa subjetividade permite que uma transação combinada seja apresentada como generosidade espontânea. Diferentemente da compra de um produto, não há necessidade de demonstrar que o presente correspondia ao valor objetivo de uma mercadoria ou serviço.
A movimentação se mistura a transações verdadeiras
Uma live popular já recebe curtidas, comentários e presentes legítimos. O dinheiro ilícito não precisa criar toda a atividade do zero. Ele pode ser incorporado a um fluxo real de monetização.
Essa técnica é conhecida como mescla. O recurso criminoso é misturado a receita lícita para dificultar a separação posterior.
A atividade é global
Criadores e presenteadores podem estar em países diferentes. Pagamentos podem envolver plataformas, lojas de aplicativos e processadores submetidos a jurisdições distintas.
A investigação pode depender de preservação rápida de dados, ordens judiciais, cooperação internacional e comparação de informações mantidas por várias empresas.
O pagamento final possui aparência empresarial
Quando a recompensa chega à conta de um influenciador, ela pode ser apresentada como resultado de uma atividade profissional pública. Há uma live, uma audiência, uma conta monetizada e um pagamento documentado.
Esse conjunto produz uma camada de legitimidade que não existiria em uma transferência direta de um integrante da organização criminosa para o beneficiário.
A perda financeira pode ser tratada como custo do esquema
O ciclo não devolve integralmente ao criador o valor gasto pelo remetente. Existem diferenças de preço, encargos e retenções. A política oficial não estabelece uma taxa universal, embora processos nos Estados Unidos aleguem que a plataforma pode reter parcela expressiva em determinadas operações.
Para quem pretende lavar recursos, essa perda pode ser aceita como o custo necessário para transformar um valor de origem perigosa em uma receita aparentemente justificável.
Por que perfis de grande audiência podem tornar o esquema mais convincente?
Um perfil de grande alcance possui características que tornam a dissimulação mais plausível.
Primeiro, ele já movimenta valores elevados. Receitas de publicidade, patrocínio, assinaturas, campanhas, eventos e presentes podem variar de um mês para outro. Um crescimento repentino pode parecer consequência de uma live viral ou de uma batalha bem-sucedida.
Segundo, a grande quantidade de seguidores reduz a estranheza aparente de presentes caros. Quanto maior a comunidade, mais fácil sustentar que existem fãs dispostos a gastar quantias relevantes para apoiar o criador.
Terceiro, a existência de audiência verdadeira oferece cobertura para contas coordenadas. Presentes artificiais podem aparecer entre milhares de interações normais, exigindo análise de dados para identificar concentração, repetição e vínculos entre os remetentes.
Quarto, o streamer profissional geralmente possui empresa, agência, contador e contratos de publicidade. Essa estrutura pode receber e contabilizar o pagamento como receita digital, conferindo aparência empresarial ao valor.
Por isso, uma organização criminosa pode considerar um perfil famoso mais útil do que uma conta recém-criada sem seguidores. A atividade pública oferece uma explicação aparentemente plausível para a movimentação financeira.
Essa vulnerabilidade não significa que o streamer participe do crime. Ele pode receber um presente financiado por fraude sem conhecer sua origem. A responsabilidade penal surge quando há prova de que sabia da procedência ilícita e aderiu ao plano de ocultação, por exemplo, mediante combinação, divisão posterior do valor ou controle conjunto das contas envolvidas.
Por que perfis de traders apresentam vulnerabilidades específicas?
As lives de supostos traders combinam monetização digital, captação de clientes e exposição pública de resultados financeiros. Quando a atividade está ligada a fraude ou a outra infração penal, essa combinação pode ser explorada por uma organização criminosa para produzir ou ocultar recursos ilícitos.
A CVM considera as opções binárias derivativos submetidos à Lei nº 6.385/1976. A autarquia já identificou programas de afiliados e o recrutamento de investidores por redes sociais. Em novembro de 2025, também determinou a suspensão da oferta de 24 plataformas que buscavam captar brasileiros sem autorização.
Para haver lavagem, o dinheiro introduzido no circuito deve ser produto de uma infração penal. Isso pode ocorrer quando a atividade envolve fraude contra clientes, retenção indevida de saques, manipulação de resultados, identidade falsa, apropriação de depósitos ou atuação de organização criminosa.
Autoridades norte-americanas, como a CFTC e a SEC, já registraram reclamações sobre plataformas de opções binárias que se recusavam a devolver dinheiro, apropriavam-se de dados pessoais ou manipulavam sistemas para provocar perdas.
Quando um operador ou afiliado obtém dinheiro por fraude, uma organização pode tentar utilizar o TikTok como rota paralela de integração:
● contas relacionadas ao grupo financiam Presentes durante as transmissões;
● o perfil do trader acumula engajamento e pode receber recompensas da plataforma;
● o pagamento passa a ser apresentado como renda de streamer, e não como valor proveniente das vítimas ou da empresa irregular;
● receitas de afiliação, publicidade e presentes podem ser misturadas, dificultando a identificação da parcela criminosa.
Há ainda uma vantagem narrativa para o eventual operador do esquema. O perfil já costuma exibir resultados financeiros, ganhos elevados e uma rotina de operações. Assim, entradas patrimoniais expressivas podem ser apresentadas ao público como sucesso no mercado, comissão de afiliado ou apoio dos seguidores.
Em uma situação criminosa, a live pode cumprir duas funções ao mesmo tempo: atrair novas vítimas para a atividade antecedente e fornecer uma explicação para parte do dinheiro obtido pelo grupo.
Por que perfis de artistas e MCs podem ser utilizados como cobertura econômica?
O tráfico de drogas e outras atividades de organizações criminosas geram recursos que precisam ser afastados de sua origem. Nesse contexto, uma organização pode tentar utilizar a presença digital de um artista como ponte entre o dinheiro ilícito e a economia formal.
O setor musical possui múltiplas receitas legítimas: cachês, direitos autorais, publicidade, patrocínios, presença em eventos, monetização de vídeos e presentes em lives. Os valores podem ser altos, variáveis e influenciados pela fama do artista.
Essa variedade permite que dinheiro ilícito seja misturado a receitas verdadeiras. Em vez de entrar diretamente na conta do beneficiário como transferência de uma pessoa ligada ao tráfico, o recurso pode passar por um ambiente de monetização e reaparecer como remuneração digital.
A cultura de fãs também favorece a aparência do negócio. Presentes de alto valor podem ser atribuídos a admiradores, patrocinadores ou integrantes de comunidades que desejam fazer o artista vencer uma batalha.
Além disso, artistas frequentemente trabalham por meio de produtoras, empresários, agências e pessoas jurídicas. A existência de vários participantes e contratos pode tornar o fluxo mais complexo e ampliar as possibilidades de mescla entre receitas de shows, publicidade e plataforma.
O Brasil já possui investigações que demonstram por que figuras públicas podem ser úteis a esquemas financeiros. Na Operação Narco Fluxo, o Ministério Público Federal afirmou ter identificado uma rede ligada a tráfico, estelionato digital e jogos ilegais que utilizava empresas de fachada, contas de passagem, triangulações e a mescla de valores ilícitos com receitas formalmente declaradas.
Reportagem da Folha de S.Paulo registrou a explicação de um delegado da Polícia Federal de que pessoas públicas com muitos seguidores podem movimentar quantias elevadas com menor estranheza aparente, o que as torna valiosas para operadores de lavagem.
O TikTok pode se encaixar nessa lógica porque acrescenta uma fonte de receita pública, variável e aparentemente compatível com a fama do artista. Em tese, o operador da lavagem poderia apresentar parte da movimentação como resultado de uma audiência digital real e de presentes enviados por fãs.
Essa possibilidade não autoriza presumir a participação do artista. A responsabilização dependeria de provas de conhecimento e adesão ao esquema, como combinação prévia, controle das contas presenteadoras, divisão dos valores ou repasses posteriores.
Por que os criminosos podem preferir uma batalha de live?
A batalha concentra engajamento e presentes em um intervalo curto. Os criadores convocam suas comunidades, estimulam a competição e recebem itens de valores variados.
Para um esquema de lavagem, esse contexto fornece uma justificativa para um pico de movimentação. O volume pode ser atribuído ao esforço dos fãs para vencer a disputa, à participação de grandes presenteadores ou à repercussão de um evento previamente anunciado.
As batalhas também produzem elementos visuais que reforçam a narrativa de legitimidade: placar, comentários, presentes aparecendo na tela e criadores agradecendo ao público.
Nada disso comprova a origem do dinheiro. Uma transmissão pode parecer autêntica e, ainda assim, conter presentes enviados por contas coordenadas. Da mesma forma, uma batalha com valores elevados pode ser totalmente legítima.
Por essa razão, a investigação não pode se limitar ao vídeo. É preciso analisar os dados financeiros por trás da interação.
Como o esquema pode ser comprovado?
O dinheiro deixa registros em todas as etapas. Uma investigação consistente deve reconstruir o fluxo desde a aquisição das Moedas até o pagamento final ao criador.
Entre os elementos relevantes estão:
● identidade e capacidade econômica dos principais presenteadores;
● meios de pagamento utilizados na compra das Moedas;
● contestações, estornos e notificações de fraude;
● repetição de presentes entre as mesmas contas;
● vínculos entre remetentes, criador, agência e empresas relacionadas;
● uso compartilhado de dispositivos, endereços digitais ou dados cadastrais;
● concentração de valores em períodos específicos;
● audiência real e padrão histórico de monetização do perfil;
● pagamentos efetuados pela plataforma e contas bancárias destinatárias;
● contratos, notas fiscais e escrituração contábil apresentados para justificar a renda;
● transferências realizadas depois do recebimento da recompensa;
● mensagens sobre combinação de presentes, divisão de valores ou devolução de parte do dinheiro.
No caso de traders, a perícia deve separar depósitos de clientes, comissões de afiliado, publicidade e recompensas de lives. No caso de artistas, deve distinguir cachês, direitos autorais, contratos de publicidade, receitas de produtoras e monetização digital.
Uma incompatibilidade isolada não prova lavagem. O que fortalece a acusação é a convergência entre origem criminosa, coordenação das contas, recebimento da recompensa e atos posteriores de ocultação ou distribuição.
O pagamento da plataforma realmente deixa o dinheiro “limpo”?
Não. “Dinheiro limpo” é apenas a aparência pretendida pelo esquema.
A plataforma mantém histórico de compra de Moedas, ativação de Presentes, contas participantes e pagamentos. Lojas de aplicativos, processadores e bancos também conservam registros próprios. Quando esses dados são reunidos, o caminho pode ser reconstruído.
O Marco Civil da Internet permite a requisição judicial de registros e dados nas condições previstas em lei. Informações bancárias, fiscais e conteúdo de comunicações dependem das garantias e autorizações aplicáveis.
A aparência documental produzida pelo pagamento da plataforma pode dificultar a investigação, mas não elimina a origem ilícita nem rompe juridicamente o nexo com o crime antecedente.
Qual é o enquadramento jurídico no Brasil?
O artigo 1º da Lei nº 9.613/1998 pune quem oculta ou dissimula a natureza, origem, localização, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal.
A pena básica é de 3 a 10 anos de reclusão e multa. Ela pode ser aumentada quando a lavagem é praticada de forma reiterada, por organização criminosa ou nas demais hipóteses previstas em lei.
No esquema dos presentes, a acusação precisaria demonstrar:
1. a existência de recursos provenientes de crime;
2. a utilização das contas, Moedas, Presentes e recompensas para esconder ou disfarçar a origem;
3. o vínculo entre os valores ilícitos e o pagamento recebido;
4. a consciência e a adesão de cada investigado ao plano.
O crime de lavagem é autônomo. A Jurisprudência em Teses nº 166 do STJ admite a autolavagem quando a pessoa responsável pelo crime antecedente pratica atos posteriores e autônomos de ocultação ou dissimulação.
Também não é necessário que o crime antecedente tenha sido previamente julgado por sentença definitiva. Contudo, a origem ilícita precisa ser demonstrada por elementos suficientes. Em decisão divulgada em 2025, o STJ destacou a necessidade de nexo causal, cronológico ou lógico entre o patrimônio e a infração apontada como antecedente.
O criador pode alegar que desconhecia a origem dos presentes?
Pode, e essa alegação precisa ser confrontada com as provas do caso.
O Direito Penal brasileiro não permite condenação automática apenas porque a conta recebeu presentes financiados por dinheiro ilícito. Um streamer pode ser utilizado sem saber que determinado espectador usou cartão fraudado ou recursos de crime.
A situação muda quando aparecem indícios de combinação prévia, contas controladas por pessoas próximas, acesso compartilhado, transmissões simuladas, divisão do pagamento ou repasse posterior ao responsável pelos presentes.
Quanto mais artificial for a relação entre a audiência, o conteúdo e os valores recebidos, maior será a necessidade de explicação documental. Ainda assim, a condenação depende da individualização da conduta e da demonstração do dolo.
Conclusão
O TikTok pode ser usado na lavagem porque transforma um fluxo originado em terceiros em uma possível remuneração de criador. Entre a origem criminosa e o pagamento final existem Moedas, Presentes, Diamantes, engajamento, regras de recompensa e intermediários financeiros.
Perfis de grandes streamers oferecem audiência e receitas compatíveis com movimentações elevadas. Perfis de traders podem reunir captação, afiliação e monetização, criando várias justificativas aparentes para o dinheiro. Artistas e MCs possuem receitas de cachês, publicidade, direitos autorais e outras atividades do entretenimento que, em um esquema criminoso, poderiam ser utilizadas para mesclar valores.
O esquema busca aproveitar exatamente aquilo que torna essas atividades legítimas: fama, apoio de fãs, rendimentos variáveis e pagamentos documentados por plataformas.
Os casos da Turquia e dos Estados Unidos demonstram que recursos provenientes de fraude podem alcançar o ecossistema dos presentes virtuais. As alegações baseadas no Project Jupiter indicam que o risco também foi identificado em relação a dinheiro ligado à venda de drogas e a outras atividades criminosas. No Brasil, a Lei nº 9.613/1998 permite responsabilizar tanto quem gera o dinheiro ilícito quanto o criador ou intermediário que, conscientemente, participa da ocultação.
Para descobrir a lavagem, não basta assistir à live. É necessário seguir o dinheiro, identificar quem financiou os presentes, comparar os dados das contas e reconstruir o caminho até o beneficiário final.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise jurídica individual do caso concreto.
Heloísa de Santis
Advogada